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De audiência como alvo à audiência como relação: quando a mídia parou de falar sozinha

  • Foto do escritor: Karina Wenda Landini
    Karina Wenda Landini
  • 22 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Houve um tempo em que planejar mídia era, basicamente, um exercício de alcance. Quanto mais gente impactada, melhor. Nos anos 90, a audiência estava ali, concentrada, previsível, reunida em poucos meios. A comunicação interrompia o conteúdo, ocupava espaços bem definidos e cumpria seu papel. Funcionava. E funcionava bem.


Afinal, o contexto ajudava.


A audiência assistia TV em horários marcados, folheava revistas, ouvia rádio no carro. A interrupção era quase um acordo tácito. Métricas como alcance e frequência, consolidadas por institutos como a Nielsen, organizavam o mercado e davam respostas objetivas para uma pergunta simples: quantas pessoas viram essa mensagem?


O problema é que o mundo seguiu em frente.


A digitalização da vida cotidiana fragmentou a atenção, multiplicou os pontos de contato e devolveu ao consumidor o controle da experiência. Hoje, a audiência escolhe o que vê, quando vê e, principalmente, o que ignora. Estudos do Google, publicados pela Think with Google, mostram que as decisões de consumo acontecem em micro-momentos espalhados ao longo do dia, atravessando telas, contextos e ambientes físicos. A jornada deixou de ser linear. E a comunicação precisou correr atrás.


Nesse novo cenário, impacto isolado perdeu potência. Falar alto já não garante ser ouvido.


Relatórios da McKinsey & Company ajudam a explicar essa virada. O consumidor atual não percorre mais um funil previsível. Ele avança, recua, compara, abandona e retoma decisões com base em contexto, conveniência e relevância. Marcas que conseguem manter presença consistente ao longo dessa jornada constroem mais valor, fidelizam mais e crescem de forma mais sustentável. Não é sobre aparecer uma vez. É sobre fazer sentido ao longo do tempo.


Essa mudança altera profundamente o papel da mídia. A comunicação deixa de ser uma interrupção e passa a ser uma companhia. Relevância, timing e contexto se tornam mais importantes do que volume. Dados da Nielsen indicam que anúncios percebidos como relevantes geram maior lembrança de marca e maior intenção de compra, mesmo quando expostos com menor frequência. Em um ambiente saturado de mensagens, significado vale mais do que repetição.


E significado constrói relação.


O Edelman Trust Barometer reforça essa lógica ao mostrar que consumidores confiam mais em marcas consistentes, coerentes e capazes de entender seus valores e necessidades. A confiança não nasce de campanhas isoladas, mas da soma de experiências ao longo do tempo. Cada ponto de contato reforça ou enfraquece essa percepção.


É nesse ponto que conceitos como brand experience e jornada da marca deixam de ser abstrações e passam a orientar decisões reais. A Harvard Business Review aponta que experiências fragmentadas, desconectadas e incoerentes enfraquecem o vínculo com o consumidor. Já jornadas integradas, nas quais mídia, mensagem e contexto conversam entre si, fortalecem a relação e aumentam o valor percebido da marca.


Os meios também mudaram de papel. OOH, por exemplo, deixou de ser apenas alcance para se tornar contexto. Relatórios do Google e da McKinsey mostram que a integração entre presença física, dados de mobilidade e estratégias digitais potencializa a relevância da comunicação. Não se trata apenas de estar na rua, mas de estar presente no momento certo, com a mensagem certa.


Nesse cenário, o planejamento estratégico de mídia deixa de ser uma etapa operacional e passa a ocupar o centro da estratégia. Ele não começa na escolha de canais, mas na leitura de comportamento. Um bom planejamento entende onde a audiência está, mas, principalmente, em que momento ela está e o que faz sentido comunicar ali. É menos sobre empilhar formatos e mais sobre desenhar experiências.


A transição da audiência como alvo para a audiência como relação não é tendência nem buzzword. É consequência direta de um consumidor mais consciente, mais exigente e com menos tolerância para mensagens vazias. Marcas que insistem em estratégias baseadas apenas em impacto correm o risco de se tornarem apenas mais um ruído em um ambiente já barulhento demais.


No fim das contas, mídia eficiente não é a que mais interrompe. É a que acompanha, entende e constrói sentido ao longo do tempo. Relações bem construídas geram valor sustentável.


Porque atingir a audiência sempre foi importante.

Mas aprender a conversar com ela mudou tudo.



 
 
 

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